Domingo, 8 de Agosto de 2010
Torga despede-se de Vilarinho da Furna

"Gerês, 6 de Agosto de 1968 - Derradeira visita à aldeia de Vilarinho da 
 Furna, em vésperas de ser alagada, como tantas da região. Primeiro, o 
 Estado, através dos Serviços Florestais, espoliou estes povos pastoris do 
 espaço montanhês de que necessitavam para manter os rebanhos, de onde 
 tiravam o melhor da alimentação - o leite, o queijo e a carne - e 
 alicerçavam a economia - a lã, as crias e as peles; depois, o super-Estado, 
 o capitalismo, transformou-lhes as várzeas de cultivo em albufeiras - ponto 
 final das suas possibilidades de vida. E assim, progressivamente, foram 
 riscados do mapa alguns dos últimos núcleos comunitários do país. 
 Conhecê-los, era rememorar todo um caminho penoso de esforço gregário do 
 bicho antropóide, desde que ergueu as mãos do chão e chegou a pessoa, os 
 instintos agressivos transformados paulatinamente em boas maneiras de trato 
 e colaboração. Talvez que o testemunho de uma urbanidade tão dignamente 
 conseguida, com a correspondente cultura que ela implica, não interesse a 
 uma época que prefere convívios de arregimentação embrutecida e produtiva, e 
 dispõe de meios rápidos e eficientes para os conseguir, desde a lavagem do 
 cérebro aos campos de concentração. Mas eu ainda sou pela ordem voluntária 
 no ócio e no trabalho, por uma disciplina cívica consentida e prestante, a 
 que os heréticos chamam democracia de rosto humano. De maneira que gostava 
 de ir de vez em quando até Vilarinho presenciar a harmonia social em pleno 
 funcionamento, sem polícias fardados ou à paisana. Dava-me contentamento ver 
 a lei moral a pulsar quente e consciente nos corações, e a entreajuda 
 espontânea a produzir os seus frutos. Regressava de lá com um pouco mais de 
 esperança nos outros e em mim.
 Do esfacelamento interior que vai sofrer aquela gente, desenraizada no 
 mundo, com todas as amarras afectivas cortadas, sem mortos no cemitério para 
 chorar e lajes afeiçoadas aos pés para caminhar, já nem falo. Quem me 
 entenderia?"
 (Miguel Torga, Diário XI)

 

----- Original Message -----
From: José Carlos Pires
To: Manuel Antunes
Cc: CPADA ; AMBIO ; coagret-pt@googlegroups.com ; Ana Cristina Figueiredo
Sent: Sunday, August 08, 2010 12:46 PM
Subject: Re: [ambio] [COAGRET.PT] despedida
Olá,
Quem será o próximo escritor, humanista, a visitar-nos e a escrever mais sobre a gente e menos sobre os bichos e as plantas?
O que escreverá ele sobre as políticas e os procedimentos dos novos "florestais" e desta moda das taxas impostas aos naturais?
O que dirá ele de uma máquina que não funciona, das novas ofensivas para tornar a terra selvagem (wilderness), qual espaço de lazer e de oportunidade para um visitante escolhido dentro de um dado perfil?
Que mal fizeram estas gentes para serem de novo espoliados do seu espaço vital?
 
Gerês, 8 de Agosto de 2010
José Carlos Pires


publicado por MA às 14:13
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